O Tarô sempre me pareceu uma dessas coisas que chegam de mansinho, sem pedir licença, como uma inspiração abusada que decide surgir no meio do banho. Dizem que nasceu na Europa medieval, que bebeu de fontes egípcias, judaicas, orientais. No fundo, é só mais um desses mistérios que fazem questão de não se explicar. E tudo bem. Algumas verdades não precisam ter certidão de nascimento. Basta que existam.
Antes de virar oráculo, o Tarô era jogo. Cartas sobre mesas de madeira, gargalhadas de taverna, o tipo de barulho que não combina com espiritualidade, mas que costuma anteceder qualquer revelação importante. Com o tempo, estudiosos começaram a enxergar símbolos demais naquela brincadeira inocente. E quando alguém vê símbolo onde antes só havia baralho, não demora muito para que a vida comece a se mexer.
O destino das cartas mudou, como tudo muda quando precisa mudar.
Entre as setenta e oito, há uma que insiste em não ficar quieta. Não tem número consolidado, não tem morada. O Louco é zero. Gosto de pensar que o zero é um círculo que retorna sempre ao próprio centro. É começo e fim ao mesmo tempo. É aquela sensação que dá quando a gente sabe que precisa tomar uma decisão, mas não faz ideia do que vem depois. O salto vem antes da explicação.
No Rider–Waite, ele aparece na beira do precipício. Sorri como quem confia demais ou como quem já entendeu que algumas quedas são só maneiras diferentes de voar. Há um cachorro que tenta avisar alguma coisa, há uma flor branca que não pesa nada, há um céu claro que parece repetir que vai dar tudo certo mesmo quando não há motivo para acreditar. Sempre achei curioso como a iconografia inteira parece conversar com essa sensação de atravessar sem garantia alguma. E atravessar, sejamos sinceros, é sempre uma ousadia.
O Louco simboliza esse instante exato em que a alma decide ir, mesmo sem mapa, mesmo sem resposta. O impulso que antecede a coragem. A vontade que chega antes do entendimento. Ele é o movimento que fazemos quando a intuição fala mais alto que a prudência. E a prudência, coitada, nem sempre tem força para segurar.
Mas o Louco também carrega riscos. A liberdade é tentadora demais, e o precipício continua sendo precipício. É a velha história: a vida não poupa ninguém do preço de crescer. O Louco é o lembrete de que toda escolha é um pouco perigosa e que fugir do perigo não impede que ele exista.
Quando aparece numa leitura, ele tanto pode anunciar um começo quanto um desfecho. Depende da posição, depende das cartas vizinhas, depende da pergunta, depende até do silêncio do leitor. Ele abre portas, mas se aparecer invertido, pode muito bem avisar que você está caminhando rápido demais, sem olhar para onde pisa. Nem toda intuição é guia. Às vezes, é só teimosia fantasiada.
No panorama profundo dos Arcanos Maiores, o Louco é a alma em seu estado cru, pronta para enfrentar as vinte e uma experiências que a transformarão. É o primeiro passo antes dos aprendizados, dos encontros, das renúncias. Depois de passar por todas essas etapas, a jornada termina no Mundo. E é justamente quando termina que começa de novo. O Louco retorna, sorri, e caminha outra vez. A evolução é cíclica, e a vida parece gostar de repetir as provas até que a gente aprenda.
Talvez seja essa a maior beleza dessa carta: ela lembra que o desconhecido não é inimigo. É só o espaço onde tudo ainda pode acontecer. A vida é generosa quando a gente aceita caminhar com o coração aberto. E quando a gente finalmente entende isso, percebe que todo final que parecia ruína não era nada além de um novo começo cansado.
O Louco é o passo que não sabemos explicar, mas que sempre nos empurra para a direção certa.