CURIOSIDADES

O Tarô não pertence a nenhuma religião

junho 10, 2026 · Mago Crônico

Existe uma confusão muito comum quando o assunto é tarô. Algumas pessoas acreditam que ele pertence a uma religião específica, outras acham que só é possível tirar as cartas incorporando alguma entidade, e há ainda quem o trate como algo proibido ou perigoso dentro da sua fé. A verdade histórica é bem mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais interessante: o tarô não nasceu dentro de religião nenhuma. Ele é uma ferramenta simbólica, e ferramentas não têm dono.

De onde o tarô realmente veio

O tarô surgiu na Itália do século XV, por volta de 1440, nas cortes de Milão, Ferrara e Bolonha. Naquela época ele nem se chamava tarô, mas tarocchi, e era um jogo de cartas da nobreza, parecido com outros jogos de baralho que circulavam pela Europa. Os baralhos mais antigos que conhecemos, como o Visconti-Sforza, foram encomendados por famílias aristocráticas como objetos de arte e entretenimento. Não havia altar, não havia ritual, não havia incorporação. Havia uma mesa, cartas pintadas à mão e pessoas jogando.

O uso esotérico do tarô só apareceu mais de trezentos anos depois. No final do século XVIII, o francês Antoine Court de Gébelin publicou a teoria de que o tarô seria um livro de sabedoria do antigo Egito, sobrevivente em forma de jogo. A teoria era fascinante, mas não tinha base histórica nenhuma. Mesmo assim, ela pegou. A partir dali, ocultistas como Etteilla, Eliphas Lévi e, mais tarde, a Ordem Hermética da Aurora Dourada, começaram a relacionar os arcanos com a Cabala, a astrologia e o hermetismo. Em 1909 nasceu o baralho Rider-Waite, que popularizou o tarô no mundo inteiro. Ou seja: o tarô esotérico que conhecemos hoje é fruto de estudo, filosofia e simbolismo, não de uma revelação religiosa.

A apropriação religiosa

Com o passar do tempo, diversas tradições religiosas incorporaram o tarô às suas práticas. Isso aconteceu de forma natural, porque o tarô é um sistema de símbolos universais, e símbolos universais dialogam com qualquer cosmovisão. No Brasil, por exemplo, é comum encontrar o tarô dentro de terreiros e centros, lido por meio de entidades. Em outros contextos, ele aparece associado à bruxaria moderna, ao neopaganismo ou a correntes da Nova Era. Todas essas apropriações são legítimas dentro das suas próprias tradições, e merecem respeito.

O problema começa quando a apropriação vira exclusividade. Quando alguém afirma que o tarô “é coisa de tal religião”, ou que “só funciona se vier acompanhado de entidade”, está confundindo o uso que uma tradição faz da ferramenta com a ferramenta em si. É como dizer que o violão pertence ao samba porque o samba usa violão. O instrumento existe antes e além de qualquer estilo que o adote.

E há também a apropriação pelo medo: tradições que rotularam o tarô como algo demoníaco ou proibido. Curiosamente, esse rótulo também é uma forma de apropriação, porque atribui ao tarô uma natureza religiosa que ele nunca teve. Um baralho de cartas não carrega demônio nenhum, assim como não carrega santo nenhum. Ele carrega imagens, arquétipos e séculos de simbolismo humano.

Não é preciso incorporar nada para ler tarô

Talvez esse seja o ponto mais importante deste artigo. A leitura de tarô é, antes de tudo, um exercício de interpretação simbólica. O tarólogo estuda os arcanos, conhece suas correspondências, observa as combinações entre as cartas e traduz aquilo em orientação para a vida do consulente. É um trabalho de conhecimento, intuição e sensibilidade. Não exige transe, não exige mediunidade ostensiva, não exige incorporação.

Isso não significa que quem lê por meio de entidades esteja errado. Significa apenas que esse é um caminho entre muitos, e não o único. Grandes tarólogos da história, de Eliphas Lévi a Alejandro Jodorowsky, jamais incorporaram entidade alguma para abrir as cartas. Eles estudaram. Mergulharam no simbolismo, na filosofia hermética, na psicologia das imagens. O tarô responde ao estudo e à dedicação de quem o consulta com seriedade, independentemente da fé que essa pessoa carrega no peito.

O tarô como espelho, não como dogma

No fim das contas, o tarô é um espelho de setenta e oito faces. Ele reflete a alma de quem pergunta e a sabedoria de quem interpreta. Pode ser usado por um católico, por um espírita, por um umbandista, por um budista ou por alguém sem religião nenhuma. Cada um vai enxergar as cartas através das suas próprias lentes, e está tudo bem. O que ninguém pode fazer é trancar o espelho dentro de um templo e dizer que ele só reflete ali dentro.

Conhecer a história do tarô liberta. Liberta do medo de quem foi ensinado a temê-lo, liberta da obrigação de quem acha que precisa seguir um ritual alheio para consultá-lo, e liberta o próprio tarô, devolvendo a ele o que sempre foi: uma das mais belas ferramentas de autoconhecimento que a humanidade já criou.

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